• José Rosa

A PRODUÇÃO DE VINHOS DO BRASIL - PARTE 5 - SANTA CATARINA


COMO ESTÁ DISTRIBUIDA A PRODUÇÃO DE VINHOS NO BRASIL ?

Na sequencia da série de posts A PRODUÇÃO DE VINHOS DO BRASIL hoje vou mostrar o estado de Santa Catarina.

De modo semelhante ao Rio Grande do Sul, o Estado de Santa Catarina tem sua tradição vitivinícola e intimamente relacionada com a colonização italiana nas regiões do Vale do Rio do Peixe, onde se destacam os municípios de Videira, Tangará e Pinheiro Preto, na região carbonífera, no Sul do Estado, com destaque para os municípios de Urussanga, Pedras Grandes e Morro da Fumaça, e na região do Vale do Rio Tijucas com destaque para os municípios de Nova Trento e Major Gercino.

Nestas regiões, a viticultura se consolidou com base em cultivares de origem americana, seja para a produção de vinhos de mesa, suco de uva ou uva de mesa. A partir de meados do ano 2000, uma nova vitivinicultura começou a ser implantada no Estado, com o propósito de produzir vinhos finos de qualidade, com base em vinhedos instalados em regiões de altitude, em municípios pertencentes às regiões de São Joaquim, Campos Novos e Caçador.

Segundo levantamentos efetuados pela Estação Experimental da EPAGRI/Videira, a área total de videiras no Estado de Santa Catarina é de 4.070 ha, destes 20% com variedades de Vitis vinifera e 80% com variedades americanas e híbridas. Quanto ao destino da produção, 70% destinam-se à produção de vinhos e suco de uva, 5% à produção de vinho colonial1 e 25% ao mercado de uva de mesa. No contexto do Estado de Santa Catarina, a vitivinicultura envolve cerca de 2.000 famílias e é responsável por cerca de 20.000 empregos diretos. Tendo em vista suas peculiaridades, apresentamos na sequência, de forma individualizada, cada uma das regiões mencionadas.

Santa Catarina

Planalto Catarinense

A identidade dos vinhos desta região é moldada pela altitude. Zona produtiva mais alta do país, entre 900 e 1,4 mil metros acima do nível do mar, o Planalto Catarinense tem solo basáltico que confere complexidade a seus tintos, brancos e espumantes. No clima temperado e úmido, as temperaturas são bastante baixas, principalmente à noite. Esse fator influencia no calendário de colheita. Lá, as videiras apresentam desempenho tardio, e as uvas só ficam maduras entre março e abril

Vale do Rio do Peixe

Trata-se de uma região com uma vitivinicultura tradicional, desenvolvida em pequenas propriedades, com uma matriz agrícola bastante diversificada, com avicultura, suinocultura, produção de leite, fruticultura e culturas anuais. Sua viticultura é baseada em variedades americanas e híbridas predominando as variedades: Isabel, Bordô, Niágara Branca e Niágara Rosada; normalmente os parreirais são conduzidos no sistema de latada.

Além da produção de vinhos de mesa e suco de uva, registra-se, na região, a produção de um vinho espumante da variedade Niágara, elaborado pelo “Processo Asti”. No mercado, este produto é normalmente comercializado aos mesmos níveis de preços dos espumantes moscatéis finos, também produzidos na região. Além dos produtos processados, parte da uva produzida na região, especialmente de Niágara Rosada, é destinada ao mercado de uva de mesa.

De modo semelhante ao que ocorre na Serra Gaúcha, a estrutura da cadeia produtiva vitivinícola regional apresenta como opções de venda da produção de uvas, para fins industriais, as cooperativas vinícolas e/ou as empresas vinícolas privadas. Embora com menor expressão, há uma terceira alternativa, relacionada com a demanda de particulares que adquirem a uva para elaboração de vinho colonial em outras regiões do Estado.

Quanto ao direcionamento da produção, também nesta região, confirma-se a tendência de crescimento da produção de suco de uva em detrimento da produção do vinho de mesa, que nos últimos anos vem perdendo espaço no mercado. Neste particular, há consciência das lideranças setoriais relativamente ao impacto negativo causado pelo crescimento da produção de “Coquetéis” e “Sangrias” por parte de vinícolas da região, nos últimos cinco anos. As avaliações são no sentido de que, além de inviabilizar o mercado do vinho de mesa, o grande volume destes produtos produzidos na região compromete a imagem de seus produtos vinícolas genuínos.

Um exemplo emblemático do atual cenário da vitivinicultura da região do Vale do Rio do Peixe é o fato de a Cooperativa Agropecuária Videirense - Coopervil, uma instituição que possui um quadro de 1.200 produtores associados e uma capacidade instalada para elaborar 4,5 milhões de litros de vinho, ter produzido em 2010, apenas 200 mil litros de vinho, dando prioridade à produção de suco de uva concentrado. Diante deste cenário mercadológico, a Coopervil enfrenta uma situação paradoxal, pois, por um lado, possui capacidade ociosa para a produção de vinho e, por outro, estrutura insuficiente para aumentar a produção de suco de uva. Devido à dificuldade de obtenção de crédito em condições adequadas para efetuar os investimentos necessários e, diante da falta de condições para absorver toda a produção, a Coopervil tem liberado seus associados para a comercialização da uva para terceiros.

A produção de uvas finas é pequena na região, em torno de 5% do total, e é destinada à elaboração de vinhos tranquilos e vinhos espumantes (tipo Champanha e Moscatel). Neste segmento da cadeia produtiva, cabe registro o projeto da Vinícola Panceri Ltda. localizado no município de Tangará. Embora sendo uma vinícola que tem a sua história ligada à produção de vinhos de mesa, nos últimos anos vem modernizando e diversificando o seu foco de mercado, apresentando atualmente, além dos vinhos de mesa, vinhos finos, espumantes finos, espumante Niágara e suco de uva.

Complementarmente, possui uma bem montada estrutura para o atendimento de turistas, com varejo, museu da viticultura regional e um restaurante em fase final de instalação. Relativamente à sustentabilidade da atividade vitícola na Região do Vale do Rio do Peixe, identifica-se, como principais pontos de estrangulamento: o desestímulo dos produtores devido aos preços baixos pagos pela uva para processamento, a escassez e o custo elevado da mão-de-obra para atividades agrícolas, em especial para a viticultura.

Litoral Sul

A vitivinicultura da região carbonífera, no sul do Estado de Santa Catarina, está concentrada nos municípios de Urussanga, Pedras Grandes e Morro da Fumaça. É uma região colonizada por imigrantes italianos, onde predomina a atividade agrícola desenvolvida em pequenas propriedades.

A vitivinicultura desta região se consolidou a partir do cultivo da variedade de uva Goethe, com base na qual é elaborado um vinho branco de mesa, que embora não seja o único a ser produzido, é o típico da região. Segundo informações da Estação Experimental da Epagri/ Urussanga, esta região possui cerca de 300 hectares de vinhedos, 10% dos quais, de uva Goethe, concentrados nos municípios de Urussanga e Pedras Grandes, sendo toda produção destinada à elaboração de vinhos tranquilos e espumantes.

Em 2005, foi criada a Associação dos Produtores da Uva e do Vinho Goethe – PROGOETHE, envolvendo sete vinícolas, cujo objetivo está centrado na tarefa de “levar os vinhos Goethe a excelência”. Com um Programa focado em ações de organização e promoção dos vinhos e do enoturismo da região, a PROGOETHE tem desenvolvido, em parceria com o Sebrae-SC, Fapesc, Epagri, UFSC e outras instituições, diversos projetos tanto na área técnica quanto promocional. O referido Programa conta com uma boa estrutura de logística, ocupando um antigo prédio da Estação Ferroviária onde há exposição de artesanatos, distribuição de material promocional, orientação de roteiros para visitação às vinícolas, exposição e comercialização de vinhos, entre outras iniciativas.

Atualmente, o principal pleito da PROGOETHE, está relacionado com a implantação da Indicação de Procedência dos Vinhos Goethe, cujo processo encontra-se tramitando junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial – INPI. A despeito do caráter emblemático da uva e do vinho Goethe, o maior volume de produção de uvas na região é da cultivar Niágara Rosada, voltada principalmente ao mercado de uva de mesa. As variedades Bordô, Grano d’Oro e Niágara Branca, também cultivadas na região, são destinadas à elaboração de vinho de mesa e, em menor quantidade,suco de uva cuja produção começa a ganhar expressão.

Os vinhedos da região são conduzidos no sistema de latada e enxertados sobre diferentes variedades de porta enxerto. O clima da região é subtropical, com variação de temperaturas de acordo com a altitude, o que possibilita uma boa distribuição da colheita. No caso da “Niágara Rosada”, por exemplo, a colheita se estende de meados de dezembro a meados de fevereiro, o que possibilita aos produtores de uva de mesa, um longo período de oferta para o mercado regional que, por sua proximidade das praias catarinenses, é muito atrativo e aquecido nesta época do ano. Ao nível do mercado, verifica-se uma diferença significativa entre os preços dos vinhos da grife Progoethe e os vinhos correntes, o que de fato se justifica pela qualidade superior apresentada pelos primeiros. A mão-de-obra, para a atividade vitícola, é escassa e cara na região. Também há deficiência de assistência técnica especializada tanto na área de viticultura quanto de enologia.

Considerando tratar-se de vinícolas com pequenas escalas de produção, uma forma alternativa para solucionar este problema seria a contratação de técnicos/consultores de forma coletiva. Algumas vinícolas apresentam defasagem tecnológica bastante significativa, carecendo de investimentos tanto na melhoria da estrutura física quanto em novos e modernos equipamentos.

Vale do Rio Tijucas

A vitivinicultura desta região está centrada nos municípios de Nova Trento e Major Gercino. Com sua economia tradicionalmente baseada na agricultura, a região é reconhecida pela tradição na produção de uvas e na elaboração/comercialização do vinho colonial e do suco de uva.

A estrutura produtiva vitivinícola da região conta com aproximadamente 60 ha de videiras no município de Nova Trento e 90 ha no município de Major Gercino, com predominância das cultivares de Vitis labrusca: Bordô, um clone desta chamado de Grano d’Oro, Niágara Branca e Niágara Rosada, as quais são produzidas principalmente sob o sistema de condução horizontal (latada). A defasagem tecnológica verificada no município de Nova Trento é notória, evidenciando a perda de interesse e de importância da atividade vitícola. Concorrem para este cenário o isolamento técnico à que estão submetidos os produtores, já que praticamente não existem especialistas em viticultura e enologia na região, e a falta de mão-de-obra para as atividades agrícolas. O município é reconhecido como celeiro de profissionais especializados na área da construção civil.

A produção vitivinícola local tem como produto referencial o vinho tinto de mesa da variedade Bordô, entretanto, sua produção depende, em grande escala, de uvas e/ou vinho adquiridos em outras regiões do estado de Santa Catarina e, principalmente, da região da Serra Gaúcha. Estima-se que a produção de uvas da região atenda apenas a cerca de 10% da demanda local que, segundo estimativa da Epagri, é de cerca de 3.500 toneladas/ano. Contrastando com este cenário, o município de Nova Trento, ostenta e desfruta da condição de ser a segunda maior Estância Turística Religiosa do Brasil e importante pólo de turismo ecológico, facilitado por estar localizado numa região de fácil acesso, próximo aos grandes centros urbanos do Estado e com muitas belezas naturais.

O apelo religioso do município está baseado na existência do Santuário de Santa Paulina (primeira Santa brasileira, que migrou da Itália para o Brasil (Vígolo - Nova Trento-SC), aos nove anos de idade, onde em 1890 deu início a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição). Com base no grande afluxo de turistas ao município de Nova Trento, surgiu um mercado informal de vinhos e suco, sem qualquer fiscalização e controle, prejudicando os produtores legalizados e, sobretudo a imagem vitivinícola da região.

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#VinhosBrasil #SantaCatarina

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